O desconhecimento do jornalista do site da Record sobre quem é a juíza Luislinda Valois, suscitou uma reflexão sobre a aparição do negro, na televisão e o lugar que ocupa no imaginário social. "A maioria das pessoas que davam os depoimentos no final de cada capítulo era branca. No dia do depoimento da juíza Luislinda eu assistir, mas, ela não conta tudo que ela passou. Ela deu um depoimento uma vez e contou tudo como aconteceu, na sua trajetória. A sua história de superação, mas, isso a Globo cortou. O que fica hoje no imaginário das pessoas é a camareira e não a juíza Luislinda, o que ela passou e a sua condição hoje". Cristovão da silva
"Para completar o que aconteceu com a nossa juíza Luislinda Valoais, na novela que trouxe o seu depoimento, como um dos exemplos de superação, na verdade conseguiu, foi afirmar o que nós já denunciávamos, que é, justamente, a ideia de que o racismo existe e ele atinge o negro independente de ser pobre ou rico.
A Luislinda já não é mais a menina negra pobre, ela é juíza e, quando se transforma em juíza ela passa a ser de classe média alta, um segmento mais restrito da sociedade, com alto prestígio e status social. Mesmo assim não conseguiu blindar o racismo. Ela foi confundida com o piso das ocupações comuns as mulheres negras, que é a camareira, que remonta ao serviço doméstico, profissão de baixo prestígio social. Por que Luislinda não foi confundida como outra atriz, amiga de Natália, de alto prestígio social, já que o jornalista a desconhecia? Essa é a grande questão.
Não acho que o jornalista teve a intenção de fazer, penso que é muito mais grave que isso. Já está tão naturalizada a associação da mulher negra ao ato de servir, que vendo a cena, ele elogiou a forma carinhosa que a atriz Natália do Vale tratava a sua camareira. Aquela mulher negra só podia ser a camareira é isso que eu acho mais perverso.
Vejo como uma ação consciente de negação, de abafamento, do racismo, isso é indiscutível, é uma ação perversa, intencional da emissora de não fazer a autocrítica. Até porque o que aconteceu com a Juíza Luislinda, impõe ao jornalista Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, uma reflexão de tudo que ele disse, quando escreveu o livro Nós não Somos Racistas, como uma reação a política de cotas que vem sendo implementada no Brasil. Olívia Santana
"Luislinda Valois tem uma história de vida muito linda, do ponto de vista daquela que teve que lutar, juntamente, com sua família, para se tornar o que é hoje: a primeira Juíza negra do Brasil. Mas, infelizmente, não deixou de sofrer racismo. A Globo, certamente, querendo fazer um contraponto aos vários discurso e, principalmente, o do Movimento Negro, que Thaís Araújo, estava sendo vítima do racismo global, que é “velado”, de negação da competência da atriz negra.
Nesse sentido, convidou uma personalidade de referência nacional, a primeira Juíza do país, LuisLinda para dá depoimento de sua vida. Tudo isso, porque a emissora queria ficar “bem”, com o Movimento Negro e a opinião pública, para não ser considerada uma TV racista.
A Juíza é convidada para participar da festa de encerramento da novela. Como nem todos os presentes conheciam Luislinda e, o jornalista era um desses, até por ser uma estranha àquele ambiente, foi identificada com a camareira. Isso é fruto do nosso senso comum, que julga na divisão racial do trabalho, que uma mulher negra ao lado de uma branca ou branco, só pode ser subalterna, logo, não poderia ser diferente com a pessoa da Juíza, confundida com uma camareira". Roquildes Ramos